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História do arroz no Brasil

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Alguns estudiosos afirmam que o cultivo começou antes da chegada dos portugueses no país. Melhoramento genético e implementação de tecnologias foram essenciais para a expansão da produção.

O Brasil foi o primeiro país a cultivar arroz no continente americano


O arroz é considerado um dos alimentos mais importantes para a nutrição humana de acordo com a Organização Mundial de Alimentação e Agricultura (FAO), é o segundo cereal mais cultivado no mundo e é o principal alimento para mais da metade da população mundial.

Reunimos algumas informações para que você conheça mais da história do arroz no Brasil, a evolução no seu cultivo e os desafios enfrentados a partir da entrevista com dois especialistas renomados no assunto - Antonio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), e o engenheiro agrônomo Carlos Henrique Paim Mariot, técnico do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA).  Boa leitura!

Abati-uaupé para os tupis

O Brasil ocupa o 10º lugar no ranking de países produtores de arroz e o seu cultivo ganhou importância social, econômica e política desde a época colonial. Alguns autores afirmam que o país foi o primeiro a cultivar o cereal no continente americano. Conhecido como “milho d´água” (abati-uaupé), era cultivado pelos tupis nos alagados próximos ao litoral, muito antes dos portugueses chegarem por aqui. Depois da chegada dos colonizadores, há registros do cultivo de arroz em terras secas no Maranhão, nos anos 1745, em Pernambuco, por volta de 1750, e na Bahia, em 1857. Em 1766, a cidade do Rio de Janeiro recebeu a primeira descascadora de arroz do país, após autorização da Coroa Portuguesa.

Somente em meados do século XVIII é que a produção passou a acontecer de forma organizada e racional, contribuindo para o Brasil tornar-se um grande exportador de arroz. Por volta de 1781, os portugueses proibiram a exportação para proteger a produção local. Com a abertura dos portos, a partir de 1808, o país passou a receber maior quantidade do grão. Ao longo dos anos, a produção brasileira aumentou, reduzindo a dependência na importação. Um dos fatores que contribuiu para a expansão do cultivo para diferentes regiões do país foi a introdução do arroz na alimentação do exército, além de outros fatores como melhoramento genético e avanços tecnológicos.

Antonio da Luz, economista chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), destaca que atualmente o plantio de arroz é uma atividade do agronegócio com faturamento expressivo e que gera comércio, empregos, impactos no consumo de energia elétrica e combustíveis, cumprindo um papel econômico e social muito relevante.

Melhoramento genético elevou a qualidade dos grãos

O engenheiro agrônomo Carlos Henrique Paim Mariot, técnico do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), explica que os estudos para o desenvolvimento de variedades começaram na década de 40, com influência da Itália. Os anos 60 representaram um marco importante na cultura do arroz mundial, com o surgimento das chamadas plantas modernas, que possuíam um maior potencial produtivo. Essa revolução chegou ao Brasil na década de 70, a partir do Rio Grande do Sul, possibilitando variedade de produção. “Com o melhoramento genético, ocorrido em meados dos anos 70, surgiram novas variedades, com aumento de produtividade, melhor qualidade dos grãos e resistência a doenças. A parceria da Embrapa foi importante para o desenvolvimento de novas variedades e o lançamento de algumas cultivares a partir dessa época”, destaca.

Antonio da Luz reforça que as tecnologias genética, química e mecânica, implementadas ao longo do século XX no Brasil, foram as responsáveis pelo aumento expressivo da produtividade. “Antes, o arroz era uma produção rudimentar como qualquer outra, talvez um pouco mais complexa por causa do manejo da água ser mais desafiador. Hoje, a produção tem uma característica industrial, resultado da tecnologia. Antes, o agricultor era extrator e agora é produtor, ele produz na natureza graças à tecnologia”, observa.

Combate ao arroz-vermelho

Apesar do salto genético, a produção só teve novos avanços com a introdução do sistema de produção Clearfield, em 2003, para controlar quimicamente o arroz-vermelho, uma das ervas daninhas mais prejudiciais para o cultivo do cereal. “Este sistema possibilitou o uso de ferramentas de manejo com mais segurança, somado a evolução das pesquisas, nós chegamos em um patamar de produtividade acima de 9 mil quilos por hectare, um recorde. Antes eram três ou quatro mil quilos no máximo”, ressalta Mariot. Ele aponta que outro fator muito importante para a evolução da cultura do arroz foi a produção de sementes certificadas com zero porcentagem de arroz-vermelho.

Outro desafio

A cultura do arroz ainda foi beneficiada com a evolução dos defensivos químicos por parte da indústria. Atualmente, os produtos respondem cada vez melhor ao controle, são mais eficazes e têm menor impacto ambiental. Entretanto, a resistência das plantas daninhas e de doenças ainda é um grande desafio. “Existem doenças que afetam o arroz e podem resultar em perdas de 100%. Por isso o papel das ferramentas químicas para o manejo de doenças, como os fungicidas, é essencial para ajudar os produtores. Eles também precisam fazer a sua parte, tendo respeito, utilizando corretamente os produtos e usando herbicidas registrados. Todos temos um compromisso com o meio ambiente”, destaca o engenheiro agrônomo.

Aspectos mercadológicos

Questionado sobre a queda de 55% na área plantada de arroz entre 2000 e 2020, sendo que a produção do grão recuou apenas 7% nesse mesmo período, Luz aponta que a estabilidade da produção, apesar da redução da área, é resultado da alta produtividade proporcionada pela tecnologia. “Os níveis produtivos só foram mantidos porque abrimos um canal exportador e, nos últimos 10 anos, o arroz entrou no radar do mercado internacional. Estamos vivendo um momento de consolidação dos mercados que temos, que é a América do Sul, América Central e África. Temos aberto mercados bacanas como o México, que tem muito potencial e é o nome da vez no curto prazo. Não temos estrutura para abrir mais mercados, por isso temos que continuar fortalecendo o que já temos”, esclarece. O economista comenta que devido à estiagem, este ano a produção de arroz será menor, com previsão de redução de 1 milhão de toneladas. O excesso de calor também prejudicou a qualidade dos grãos.

Arrozeiros do presente e do futuro: sem margem para erros

Mariot evidencia que daqui para frente o produtor não tem mais margem para erro, porque qualquer falha proporcionará perdas que impactam muito na produtividade. “Há uma evolução e quem não consegue acompanhar, acaba saindo do processo. Por isso, o meu conselho é investir em gestão. A propriedade é uma empresa e precisa ter a gestão eficiente dos recursos, dos insumos e fazer os processos no momento certo para se manter mesmo diante de uma crise”, salienta.

Luz concorda e reforça que a gestão é o ponto mais frágil do agronegócio. “Estamos atrasados na parte de gestão. Conseguimos evoluir muito na produção, inovação e absorção de tecnologia. Mas na parte gerencial estamos no século passado. Ganhar ou perder está no detalhe, é necessário ter balanço patrimonial, demonstrativo de resultado do exercício e do fluxo de caixa e saber o que fazer com tudo isso. Temos visto vários produtores com alta produtividade quebrarem e outros, com menos, prosperarem. A diferença nem sempre está na lavoura, mas na gestão. Esse é o grande desafio e é isso que vai determinar quem vai crescer”, conclui.