Blog •  18/09/2020

Um olhar diferente para o manejo de plantas daninhas

O arroz é uma das culturas mais importantes no mundo. É a principal fonte nutricional para a população de países em desenvolvimento. No Brasil, ele representa cerca de 10% do total de grãos produzidos (CONAB, 2019) – vindo, principalmente, de lavouras de arroz irrigado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Esses estados contribuem com cerca de 60% da produção nacional (SOSBAI, 2019). 

Nas últimas duas décadas, a produção brasileira de arroz aumentou significativamente, alcançando patamares médios de 7 toneladas por hectare (Figura 1 – IRGA, 2019). Esse incremento foi decorrente de diversos avanços em pesquisa, que aliaram práticas de manejo da lavoura com novas tecnologias de controle químico.

Atualmente, o potencial produtivo das principais variedades plantadas pode chegar a 12 toneladas por hectare (SOSBAI, 2018). Apesar da evolução, a produtividade média brasileira ainda se encontra abaixo do que muitas das novas cultivares de arroz irrigado podem proporcionar.

Isso ocorre porque, a partir do momento da semeadura, muitos são os fatores que podem limitar o potencial produtivo da cultura, como:

  • Época da semeadura
  • Incidência de plantas daninhas
  • Doenças 
  • Ocorrência de eventos climáticos extremos

 

Prejuízos causados pelas plantas daninhas

Os prejuízos causados pelas plantas daninhas vão além dos limites da lavoura arrozeira. No caso dos agricultores, elas interferem de forma direta e acentuada sobre a produtividade e lucratividade da cultura, aumentando os custos de produção (FLECK et al., 2004).

Já nas indústrias, plantas daninhas contribuem para a diminuição da qualidade do produto colhido, pois aumentam o índice de impurezas e depreciação do produto.

Dentro do vasto grupo das plantas daninhas que infestam as lavouras arrozeiras, as gramíneas são as mais problemáticas. O arroz vermelho e o capim-arroz são os mais agressivos, pois geralmente ocorrem em altas infestações e têm similaridade morfofisiológica com o arroz. 

Mesmo em baixas infestações, os prejuízos causados por essas gramíneas são grandes e devem ser considerados no curto prazo (pela diminuição da produtividade da cultura) e em médio e longo prazo (pelo aumento do banco de sementes no solo e/ou infestação de áreas vizinhas).

Características de algumas plantas daninhas

Arroz vermelho (Oryza sativa): pertence à mesma espécie do arroz cultivado. Por isso toda e qualquer condição de clima e solo que favoreça a cultura do arroz também vai favorecer o arroz vermelho. Por essa elevada habilidade competitiva, alguns trabalhos mostram que ocorrência de 5 plantas de arroz vermelho por metro quadrado já pode ocasionar perdas de produtividade de até 40% (FISHER & RAMIREZ, 1993).

Capim-arroz (Echinochloa sp.): planta daninha muito agressiva que infesta praticamente todas as lavouras de arroz o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Assim como o arroz vermelho, se adapta aos mais diversos sistemas de produção (cultivo mínimo, plantio convencional ou sistema pré-germinado). A ocorrência de uma planta de capim-arroz por metro quadrado pode ocasionar perdas de produtividade de grãos variável de 5 a 30% em função do cultivar semeado e da época de entrada de água na lavoura (GALON et al., 2007; AGOSTINETTO et al., 2007).

Junquinhos (Cyperus sp.): possuem ampla variabilidade e adaptabilidade, podendo ser anuais ou perenes. A grande produção de sementes e/ou viabilidade dos tubérculos também contribui para formarem grandes infestações ao longo do tempo, necessitando muitas vezes de mais de uma aplicação de herbicida para garantir o controle de novos fluxos.

Chapéu de couro ou aguapé (Sagittaria montevidensis): mesmo sendo considerada por muitos uma espécie ornamental, a alta infestação dessa planta daninha não só nas lavouras como também nos canais de irrigação causa severos problemas para o agricultor. Isso se dá pela dificuldade de controle ocasionada pela presença de biótipos resistentes a herbicidas na quase totalidade das áreas em que está presente.

 

 

Figura 2: Plantas daninhas presentes em lavouras de arroz irrigado. Cyperus difformis (2a) e Sagittaria montevidensis (2b).

 

 

O problema da resistência

Como se não bastasse a variabilidade de espécies que infestam as lavouras, o surgimento de biótipos resistentes aos principais herbicidas e/ou mecanismos de ação tem aumentado ainda mais a dificuldade de controle dessas plantas, causando sérios prejuízos para o agricultor. 

Em teoria, a resistência de plantas daninhas a herbicidas é a capacidade natural e herdável de alguns biótipos, dentro de uma determinada população de plantas, de sobreviver e se reproduzir após a exposição à dose de um herbicida que seria letal a uma população da mesma espécie (CHRISTOFFOLETI & LÓPEZ-OVEJERO, 2003). 

Porém na prática, a resistência de plantas daninhas acaba sendo muito mais complexa. 

A ocorrência de resistência cruzada (resistência a mais de um grupo químico dentro de um mesmo mecanismo de ação) e/ou de resistência múltipla (resistência a mais de um mecanismo de ação) está cada vez mais presente nas lavouras de arroz irrigado, principalmente em áreas com cultivo intensivo ao longo dos anos.

Hoje, algumas espécies de plantas daninhas da cultura do arroz irrigado desenvolveram biótipos resistentes a herbicidas. Esses biótipos surgiram por causa do uso excessivo de herbicidas pertencentes aos citados mecanismos de ação que foram por muitos anos os mais importantes e utilizados na cultura do arroz irrigado – e podem ser conferidos na tabela abaixo.

Tabela 1. Espécies de plantas daninhas resistentes a herbicidas no Brasil presentes em lavouras de arroz irrigado. HRAC, 2019.

Nome comum Nome científico Resistência Ano
Capim arroz Echinochloa crus-pavonis Quinclorac 1999
Capim arroz Echinochloa crus-galli var. crus-galli Quinclorac 1999
Aguapé Sagittaria montevidensis ALS 1999
Junquinho Cyperus difformis ALS 2000
Cuminho Fimbristyllis miliacea ALS 2001
Arroz-vermelho Oryza sativa var. sylvatica ALS 2006
Capim arroz Echinochloa crus-galli var. crus-galli ALS e quinclorac 2009
Aguapé Sagittaria montevidensis ALS e FTII 2009
Junquinho Cyperus iria ALS 2014
Capim arroz Echinochloa crus-galli var. crus-galli ACCase, ALS, quinclorac 2015

A grande dificuldade de manejo das plantas daninhas resistentes na cultura do arroz aparece em áreas em que não se realizam práticas como rotação de culturas associadas a um correto manejo químico/físico (que consiste no uso alternância de mecanismos de ação dos herbicidas pré e pós emergentes, controle das plantas daninhas em estádio inicial de desenvolvimento e entrada de água imediata à aplicação dos herbicidas pós emergentes). 

Nessas áreas de cultivo intensivo de arroz, a coexistência de mais de um biótipo resistente demanda a aplicação de diversos herbicidas em um mesmo ciclo, aumentando o custo de produção e nem sempre promovendo controle eficiente de toda a população de plantas daninhas presente. Tais situações, em casos mais extremos, resultam em abandono de áreas de produção de arroz.

Nesse contexto, o monitoramento de plantas daninhas que sobrevivam a tratamentos químicos é extremamente importante, pois pode se tratar de biótipos resistentes. Embora os escapes não sejam capazes de interferir drasticamente na produção econômica, a produção de sementes por estes é muito elevada, tornando o controle muito difícil nas safras seguintes. O desejável, do ponto de vista de manejo de plantas, é que o controle se aproxime do 100% para que o banco de sementes no solo não aumente.

Portanto, tendo em vista a ameaça que o avanço da resistência de plantas daninhas, o monitoramento dos “escapes” acaba sendo uma das principais alternativas para a tomada de decisão quanto ao manejo de resistências, sendo por ações de rotação de mecanismos de ação, de culturas ou técnicas específicas de preparo das áreas.

 

A importância do monitoramento

Nesse contexto, a Corteva Agriscience vem monitorando escapes de plantas daninhas em lavouras comerciais. Desde a safra 2010/11, são realizadas coletas georreferenciadas de plantas daninhas que sobreviveram a tratamentos químicos comerciais para realização de testes de tolerância das plantas à dose comercial de herbicidas pertencentes aos principais mecanismos de ação utilizados na cultura (inibidores da ALS, ACCase e ao herbicida quinclorac). Veja os dados:

  • 1267 amostras de capim-arroz coletadas
  • 37% tolerantes a pelo menos um dos herbicidas avaliados

A partir desses resultados, são realizadas recomendações com o objetivo de auxiliar os produtores na escolha correta dos herbicidas para as safras seguintes com a associação e/ou rotação de mecanismos de ação, bem como estratégias de manejo que possibilitem maior eficácia de controle. São exemplos:

  • Uso de pré-emergentes
  • Aplicações em estágios iniciais das plantas daninhas
  • Entrada de água imediatamente após a aplicação dos herbicidas

Além do capim-arroz, a empresa também vem realizando testes de tolerância em ciperáceas. Na safra 2017-18, foram coletadas 45 amostras de Cyperus iria que sobreviveram a aplicações de herbicidas inibidores da ALS. Dessas, 70% se mostraram tolerantes a esse mecanismo de ação, evidenciando a necessidade da introdução de novos mecanismos de ação no sistema de controle de plantas daninhas na cultura do arroz.   

Tabela 2: Monitoramento da presença de biótipos tolerantes a herbicidas.  

Safra Número de amostras coletadas Número de amostras tolerante a herbicidas
2010/2011 134 76 (56%)
2011/2012 495 54 (11%)
2012/2013 156 65 (42%)
2014/2015 91 75 (82%)
2015/2016 142 54 (38%)
2016/2017 166 81 (49%)
2017/2018 83 60 (72%)
Total 1267 465 (37%)

 

Manejo integrado das plantas daninhas e novas ferramentas para controle químico

O controle de plantas daninhas na cultura do arroz irrigado vem se tornando um desafio técnico e econômico que envolve não só os agricultores como também pesquisadores, técnicos e extensionistas. 

Enquanto no passado o controle consistiu basicamente na aplicação de um herbicida antes da entrada de água, hoje são necessárias práticas que vão além do ciclo da cultura, não só pelo aumento da resistência das plantas daninhas, mas pela sustentabilidade das ferramentas existentes. Portanto, a utilização de herbicidas pré-emergentes é imprescindível para o sucesso no manejo das plantas daninhas. 

  • Além de promover um controle inicial, permitindo que a cultura se desenvolva sem a interferência dessas invasoras, a ação dos herbicidas pré-emergentes acaba resultando na maior eficácia dos pós-emergentes. Isso ocorre porque o efeito residual proporcionado pelos pré-emergentes atrasa a germinação das plantas daninhas, permitindo que estejam pequenas no momento da aplicação dos pós-emergentes, característica desejada por praticamente todos os herbicidas utilizados nesse tipo de aplicação.

Aliada ao controle químico, a inundação da área também é prática fundamental para o sucesso no manejo de plantas daninhas e produtividade da cultura. 

  • O estabelecimento da irrigação logo após a aplicação dos herbicidas pós-emergentes auxilia na sua performance de controle e melhora a produtividade de grãos da cultura, já que o atraso de entrada de água na lavoura possibilita a reinfestação, sobretudo de espécies como capim-arroz, arroz vermelho e ciperáceas (KISSMANN, 1997; NOLDIN, 1988).
  • A produtividade da cultura também é impactada pela irrigação precoce, pois o fornecimento de água por maior período de tempo durante o ciclo da cultura contribui para o incremento da biomassa seca da parte aérea das plantas, resultando no melhor aproveitamento da radiação solar incidente, podendo incrementar o rendimento de grãos (BACK & CRISPIM, 2003; PULVER & MENEZES, 2003).

A rotação de culturas também é uma prática muito importante para o sucesso no manejo de plantas daninhas em ambiente de produção de arroz irrigado. 

  • A soja surge como uma excelente opção, pois permite mecanismos de ação diferentes dos normalmente utilizados durante o ciclo do arroz. 
  • A cultura da soja em rotação com o arroz favorece o solo, pois promove estruturação e maior fertilidade, além de fornecer complemento financeiro à renda do produtor.

 

Loyant®: novidade exclusiva para cultura do arroz

Além de todos os fatores citados anteriormente, é muito importante o investimento na pesquisa de novos herbicidas com mecanismos de ação distintos dos já utilizados na cultura do arroz irrigado para associação às práticas de manejo e para garantir um eficiente controle das plantas daninhas.

A Corteva Agriscience lançou recentemente o Loyant®, herbicida pós-emergente pertencente ao mecanismo de ação das auxinas sintéticas para uso global em arroz e outros cultivos. Com 25 gramas do ingrediente ativo Rinskor™ active por litro, a formulação NeoEC® dispensa o uso de adjuvantes e auxilia no manejo de plantas daninhas. 

Sua introdução no manejo químico de plantas daninhas é fundamental para orizicultura, pois é um herbicida com mecanismo de ação pouco utilizado na cultura do arroz irrigado. 

O produto controla eficientemente todas as plantas daninhas resistentes relatadas: Echinochloa crus-galli, Sagittaria montevidensis, Cyperus iria e Cyperus difformis, bem como Echinochloa crus-galli resistente ao herbicida quincloraque. As exceções são o arroz vermelho, Oryza sativa, que requer tecnologias específicas para manejo químico, e o Fimbristyllis miliacea.

É preciso estudo e atenção

O sucesso do manejo de plantas daninhas só será obtido se um conjunto de métodos de controle forem usados de forma integrada. 

A lavoura arrozeira está em um momento no qual práticas isoladas não são mais sustentáveis a médio e longo prazo. É necessária a adoção de diferentes estratégias para impedir o avanço das plantas daninhas resistentes. 

Mesmo que novos herbicidas e/ou tecnologias cheguem ao mercado no futuro, é preciso cautela na aplicação. Seguir a recomendação das bulas é fundamental para garantir que essas ferramentas permaneçam viáveis por um longo tempo. 

Afinal, o sucesso no controle das plantas daninhas é um dos principais fatores para garantir altas produtividades, e, consequentemente, satisfação do produtor de arroz.